| Esquizofrenia: As Crises e os Tratamentos | |||||||||||||||
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A esquizofrenia, uma vez diagnosticada e devidamente tratada, pode permitir que o paciente volte a levar uma vida normal. Acompanhe nesta entrevista com o Dr. Leonardo Figueiredo Palmeira algumas informações importantes sobre as crises, os diferentes tratamentos e a possibilidade de cura da doença.
1. Os pacientes em crise podem ser violentos chegando ao ponto de agredir as pessoas? Pacientes podem se tornar violentos em uma crise psicótica, mas a violência não é comum a todos os casos. Um dos grandes estigmas da esquizofrenia é justamente achar que o esquizofrênico é violento, que oferece um risco à sociedade, mas isso não é verdade. Se fizermos um levantamento dos casos de esquizofrenia, veremos que a grande parte dos pacientes – 70% a 80% dos pacientes - é muito mais vítima do que algoz de alguma violência. Então, até pelo estado de vulnerabilidade que os indivíduos se encontram, pelo estado de apreensão que o surto psicótico traz, eles se acuam. Às vezes se tornam violentos para se proteger, porque se sentem ameaçados. É preciso saber se a pessoa se sente ameaçada ou não e pra isso é preciso conversar com a pessoa, saber exatamente o que está se passando na sua mente, se está se sentindo perseguida por alguém, se ela acha que vão invadir seu apartamento ou se acha que vão fazer algum mal para sua vida. É natural que a pessoa se arme, se defenda de possíveis invasores. Então, neste sentido, a pessoa pode se tornar violenta, mas na maioria dos casos não funciona desta forma. 2. E quanto ao suicídio, o paciente em crise corre este risco? O risco de suicídio na esquizofrenia é grande, depois da depressão e do transtorno bipolar é a doença mental que mais tem risco de suicídio. Então é importante conversar com o médico do paciente para que este risco seja melhor investigado. Existem pacientes que podem tentar o suicídio durante o surto, às vezes até em obediência a alucinações que mandam se jogar, se ferir. Podem ter um comportamento suicida após o surto, por uma depressão ou quando caem na realidade e vêem que tudo aquilo faz parte de uma doença e que terão que conviver com a rotina de tratamentos. Tomar consciência do problema também pode de alguma maneira levar à depressão e ao suicídio. Realmente são situações em que tanto a família quanto os profissionais precisam ficar atentos. Existem estudos que mostram que até metade dos pacientes com esquizofrenia podem vir a tentar o suicídio em algum momento de sua vida e as taxas de suicídio na esquizofrenia giram em torno de 10%. Então realmente é motivo para termos certa preocupação, naturalmente sem exagerar, mas sabendo que isso pode ocorrer, para poder prevenir, conversar melhor com o paciente, dar apoio à família, o suporte necessário para que isso não aconteça. 3. Quais são os tratamentos possíveis para a doença? A esquizofrenia possui o tratamento químico (medicamentoso) e tratamento psicossocial, através de terapia individual, reabilitação social e terapias ocupacionais. No tratamento medicamentoso, existem medicamentos que são antipsicóticos, que atuam no cérebro bloqueando receptores de dopamina. Isto porque uma das principais alterações químicas cerebrais que ocorre na esquizofrenia é o excesso de dopamina e que causa delírios, alucinações e alterações de comportamento. Portanto, esses medicamentos corrigem este desbalanço de dopamina e com isso tratam efetivamente a doença, melhorando a capacidade do paciente se relacionar com as demais pessoas e de retomar suas atividades. Mas existem pacientes que além da questão psicótica, possuem o que chamamos de sintomas negativos – outro ponto bastante importante a ser abordado. Esses sintomas negativos são a apatia, a dificuldade de iniciativa, o isolamento social, a dificuldade de se envolver em atividades produtivas como trabalho ou atividades sociais. Enfim, pessoas que vão melhorar do surto, sair daquele estado psicótico, mas vão ter dificuldade de retomar suas atividades normalmente. Para esses pacientes é importante que além da medicação se ofereça terapias de reabilitação. Elas incluem a psicoterapia, para ajudar a pessoa a ter mais consciência de sua doença e de seus pontos fortes e pontos fracos, para trabalhar melhor sua capacidade de enfrentamento, sua auto-estima e o seu envolvimento em atividades, e terapias ocupacionais, através de oficinas e atividades que possam recuperar a capacidade da pessoa de se relacionar socialmente e de exercer atividades produtivas. Para isso existem os centros de atenção psicossocial e os hospitais-dia, onde os pacientes freqüentam as atividades de reabilitação social. Existe também a reabilitação neuropsicológica, porque a esquizofrenia tem sintomas cognitivos, como dificuldade de atenção, memória, concentração, dificuldade de planejamento e de organização de suas atividades, que podem ser recuperados com um treinamento adequado. 4. A eletroconvulsoterapia (eletrochoque) é indicada? É um tratamento polêmico, até porque já foi muito mal utilizado no passado, usado inclusive como medida punitiva para mau comportamento em clínicas psiquiátricas, ou seja, foi um tratamento que acabou ficando muito estigmatizado, embora seja um tratamento eficaz do ponto de vista médico. Existem pacientes que precisam do eletrochoque e realmente melhoram como não melhorariam com medicamentos convencionais. Os critérios de indicação para o eletro-choque são os seguintes: a) Primeiro - quando o quadro é grave e o paciente não responde à medicação ou quando não se pode esperar pela resposta à medicação. A medicação pode demorar de 8 a 12 semanas para fazer efeito. E há casos que são graves, em que a pessoa corre risco de vida e não se pode perder tempo. Nestes casos, o eletrochoque acaba sendo indicado por ser um tratamento relativamente rápido. Uma pessoa submetida a 3 ou 4 sessões de eletrochoque – o que se dá aproximadamente em uma semana - tem uma melhora substancial do quadro. b) Outras indicações - quando há catatonia, ou seja, quando o paciente fica imóvel, numa mesma posição, não interage e, portanto, não se alimenta, não ingere líquidos. Este estado traz riscos de problemas físicos, como desidratação e desnutrição, sendo necessário intervir rapidamente. Na gravidez, quando a paciente não pode usar a medicação, ou quando ela coloca em risco a saúde do feto. É importante que se diga que a eletroconvulsoterapia hoje em dia é feita em condições totalmente diferentes do que no passado, em ambiente hospitalar, com o paciente anestesiado, monitorado através de aparelhos que controlam a pressão e os batimentos cardíacos e através do eletroencefalograma para ver se o estímulo elétrico aplicado foi eficaz. É um procedimento que está regularizado tanto pelo Ministério da Saúde como pelo Conselho Federal de Medicina, portanto é um procedimento legal, feito também em outros países. Existem alguns efeitos colaterais, sendo o principal deles as alterações de memória. Durante o período em que faz as sessões, o paciente pode ter problemas de memória recente, não se recordando de coisas que acontecem nos dias próximos às sessões, mas depois do tratamento ele a recupera plenamente. 5. O paciente pode ficar 100% curado, inclusive não necessitando mais de medicamentos? Recaídas são comuns? Esta resposta é muito variável e, naturalmente, depende do caso. Em torno de 20% das pessoas que desenvolvem esquizofrenia tem um único surto, se recuperam fazendo o tratamento por um período de 1 ou 2 anos, melhoram e podem ficar sem medicação, podem viver uma vida normal e sem uma nova recaída. Neste caso, estamos falando de pessoas que têm uma forma mais leve da doença e que, portanto, são pessoas menos vulneráveis, mais resistentes às sobrecargas cotidianas e que terão menos chances de recaídas. Porém, a maior parte dos pacientes tem um curso que é recorrente, ou seja, pode sim desenvolver novas crises e aí a evolução vai depender de diversos fatores. Primeiro, do próprio tratamento, tanto medicamentoso, quanto psicoterápico e psicossocial, que precisa ser mantido por um período. Esse tratamento vai fortalecer a pessoa quanto à sua vulnerabilidade. Portanto, a esquizofrenia não é uma doença necessariamente crônica, com a qual a pessoa terá de conviver para o resto da vida. O que é pra vida inteira é a vulnerabilidade. Então, se a pessoa passa futuramente por um período de estresse, por algum trauma ou situação de desequilíbrio, pode sim desencadear uma nova crise. Mas se estiver em tratamento, se fortalecendo, as chances de recaída são menores. 6. Quais são os fatores desencadeantes destas recaídas e como evitá-las? Os fatores que influenciam as recaídas são o próprio tratamento e o ambiente em que a pessoa vive. A família se coloca em uma posição de muita importância, porque as sobrecargas advindas da convivência familiar, muitas vezes por cobranças excessivas, críticas, brigas e desentendimentos vão, ao longo do tempo, se tornando uma sobrecarga emocional e um fator de desequilíbrio a mais e que pode levar o paciente a recair mais vezes, apesar do tratamento. Alem disso, temos os fatores sociais que se relacionam à vida da pessoa, como o trabalho, por exemplo. A pessoa que se recupera de um surto e começa um trabalho muito estressante, onde as cobranças excedem sua capacidade de corresponder às demandas, pode também ter uma nova crise. Então é importante que os pacientes com esquizofrenia não só façam o tratamento do surto, mas sejam acompanhados ao longo do tempo para saber quais são as suas necessidades, fragilidades, para fortalecer sua capacidade de enfrentar o estresse, saber manejar os conflitos da melhor forma possível para evitar uma reincidência da doença. Para maiores informações sobre a Esquizofrenia, acesse www.entendendoaesquizofrenia.com.br. |
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